Foto: Ilustração gerada por IA (CNN Brasil)
O avanço do endividamento das famílias brasileiras em 2026 acende um sinal de alerta para setores estratégicos da economia, especialmente o varejo, que enfrenta dificuldades diante da combinação de inadimplência elevada e juros altos, cenário que limita o consumo.
O nível de endividamento das famílias no Brasil em 2026 preocupa segmentos da economia, como o comércio varejista, que teme a retração do consumo provocada pela junção de inadimplência crescente com taxas de juros elevadas.
Paralelamente, o país registra um momento favorável no mercado de trabalho, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos. A massa de rendimentos também se destaca, atingindo o recorde de R$ 354,564 bilhões até dezembro de 2025.
Segundo Guilherme Freitas, economista-chefe da Stone, esse cenário representa uma contradição que gera um comportamento de crescimento limitado — descrito como “voo de galinha” — em setores dependentes do consumo, como o varejo.
O especialista destaca que segmentos que dependem diretamente de crédito enfrentam dificuldades, o que torna incerta a projeção para o futuro do varejo no país. Ainda assim, Freitas avalia que o aquecimento do mercado de trabalho contribui para equilibrar a situação, mantendo o setor estável.
“É difícil que o varejo enfrente uma queda livre, porque o mercado de trabalho o sustenta. Mas é difícil que ele avance fortemente, porque o mercado de crédito não deixa”, explica o porta-voz da Stone.
Com o aumento do emprego, a renda das famílias e o acesso ao crédito crescem, incentivando o consumo. Esse movimento ajudou o varejo a registrar expansão de 5,5% em março e 6,4% em comparação com 2025, conforme o Índice de Varejo Stone.
Apesar dos indicadores positivos, Guilherme Dietze, assessor econômico da FecomercioSP, ressalta que o problema surge quando esse estímulo resulta em inadimplência, especialmente em um contexto financeiro e econômico instável.
Para os varejistas, o cenário atual impõe “pressão de capital de giro que provoca sortimento mais restrito e mais pressão por eficiência operacional”, de acordo com Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores.
Juros elevados pressionam o varejo
Até a segunda metade de março, a taxa Selic estava no nível mais alto em duas décadas. Mesmo após uma redução de 0,25 ponto percentual, a política monetária do Banco Central continua restritiva, mantendo os juros básicos em 14,75% ao ano.
Mesmo diante desse cenário, os brasileiros continuaram recorrendo ao crédito. Dados do Banco Central mostram que dezembro de 2025 registrou recorde de saques por pessoas físicas. Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda familiar com dívidas atingiu o maior patamar da série histórica em janeiro.
Em relatório divulgado na segunda-feira (13), o Banco Central manifestou preocupação com o superendividamento das famílias brasileiras, classificando a tendência como um problema crescente no país.
Segundo a instituição, a facilidade de acesso ao crédito, combinada à ausência de educação financeira, leva muitos brasileiros a assumirem dívidas além da capacidade de pagamento.
João Vitor Gonçalves, economista da CNC, explica que os juros impactam o varejo tanto diretamente — ao elevar custos empresariais — quanto indiretamente — ao reduzir o consumo das famílias.
“Em segmentos mais dependentes de parcelamento ou financiamento, como bens duráveis, veículos, material de construção e itens de maior valor, esse efeito tende a ser mais intenso”, elenca Gonçalves, ressaltando que a PMC do IBGE registrou queda de 3% na venda de veículos em 2025.
“Além disso, os juros elevados também aumentam o custo financeiro das empresas, afetando o capital de giro, os investimentos, a reposição de estoques e a expansão das operações. Em um ambiente como esse, o varejo costuma crescer em ritmo mais lento e com maior heterogeneidade entre segmentos”, reforça.
Impactos ao setor
O aumento do comprometimento da renda com dívidas, somado a uma postura mais cautelosa das famílias, também acende um alerta no varejo, conforme aponta o economista da CNC. Assim, o setor já sente reflexos concretos no nível microeconômico devido ao cenário macroeconômico.
“Os dados mais recentes do IBGE mostram que o varejo fechou 2025 com crescimento de 1,6%, abaixo do resultado de 2024, enquanto o varejo ampliado, mais sensível ao crédito, acumulou apenas 0,1% no ano. Isso sugere que os segmentos mais dependentes de financiamento vêm sentindo de forma mais intensa os efeitos do ambiente monetário restritivo”, observa Gonçalves
“Apesar disso, a intenção de consumo das famílias, medida pela pesquisa homônima da CNC, tem se recuperado desde outubro de 2025, o que ajuda a explicar certa resiliência do setor. […] Ao mesmo tempo, indicadores da CNC mostram melhora recente da confiança de empresários (ICEC), o que indica algum alívio na percepção, mas ainda sem eliminar os efeitos de um custo de crédito elevado sobre a atividade”, pontua.
Ana Paula Tozzi afirma que os impactos se espalham por toda a cadeia de consumo, levando os comerciantes a adotarem estratégias como:
• Redução de estoques;
• Foco em categorias de maior giro;
• Revisão de planos de expansão.
“Estamos em um ambiente que exige disciplina operacional e gestão nos mínimos detalhes”, pontua a CEO da AGR Consultores.
Mesmo com a renda aquecida, o crédito tem sido direcionado principalmente ao refinanciamento de dívidas, limitando o consumo. “O varejo é afetado com isso”, avalia Guilherme Freitas, da Stone.
A restrição do consumo, segundo Tozzi, gera um impacto “muitas vezes até mais relevante que o observado diretamente”.
“Juros ‘comem’ a capacidade de o consumidor consumir mais. Com o crédito mais caro e parcelas mais pesadas, o consumidor fica mais inseguro financeiramente”, conclui.

Com informações de CNN Brasil

