FOTO: Jefferson Rudy/Agência Senado / Pablo Valadares/Câmara / Maryanna Oliveira/Câmara / Michel Jesus/Câmara / Pedro França/Agência Senado / Andressa Anholete/Agência Senado
Casos recentes envolvendo figuras da direita brasileira reacenderam o debate sobre fidelidade política e coerência ideológica, especialmente às vésperas das eleições ao Senado. Episódios como o da senadora Soraya Thronicke evidenciam um padrão que preocupa parte do eleitorado.
A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), eleita em 2018 pelo PSL e que ocupou a vice-liderança do governo Bolsonaro no Congresso em 2021, votou na terça-feira (14) contra o relatório final da CPI do Crime Organizado. O documento foi rejeitado por 6 votos a 4, e sua posição contribuiu para barrar o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A apuração sobre eventuais abusos da Corte passou, nos últimos anos, a ser uma das principais bandeiras justamente do público que a projetou nacionalmente.
O episódio envolvendo Soraya não é um caso isolado. Nos últimos anos, diversos nomes que ascenderam politicamente impulsionados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e pelo avanço da direita no país passaram a adotar posturas difíceis de conciliar com a imagem original. Esses episódios incluem mudanças de partido, rompimentos pessoais, ocupação de cargos no governo Lula, acusações contra antigos aliados e decisões institucionais que barraram pautas consideradas simbólicas para a direita.
Em 2018, sob forte influência de Bolsonaro, o PSL ampliou sua presença na Câmara, passando de oito para 52 deputados, e conquistou quatro cadeiras no Senado, onde antes não possuía representação. Paralelamente, representantes da chamada “nova direita” também foram eleitos por outras siglas, consolidando o que analistas classificaram como uma guinada conservadora no Congresso. Esse movimento se manteve em 2022, mesmo com a volta de Lula à presidência, com a eleição do chamado “Congresso mais direitista da história”.
Com o passar do tempo, entretanto, essa transformação mostrou-se, em muitos casos, pouco efetiva. Ocorreram rompimentos com Bolsonaro, abandono de pautas associadas à direita e adaptações voltadas à manutenção de poder, incluindo alianças com o Centrão. Nesse cenário, presidentes da Câmara e do Senado eleitos com apoio da direita e do próprio Bolsonaro optaram por não avançar com propostas relevantes para esse campo, como pedidos de impeachment de ministros do STF ou anistia aos presos de 8 de janeiro.
A repetição desses episódios acende um sinal de alerta para as eleições de 2026, diante da expectativa de que uma mudança no Senado possa limitar decisões do STF e influenciar os rumos do país. Contudo, como demonstram diversos casos desde 2019, a eleição de nomes vinculados à direita não assegura, necessariamente, fidelidade às pautas defendidas por esse eleitorado. A seguir, alguns exemplos.
“Jamais desviaria do meu compromisso com as pessoas que confiaram seus votos a mim”, disse Soraya Thronicke em 2021
Soraya Thronicke foi eleita senadora em 2018 pelo PSL, partido de Bolsonaro, e fortaleceu sua posição no campo governista ao assumir, em 2021, a vice-liderança do governo no Congresso. À época, sua imagem estava fortemente associada ao eleitorado de direita, conforme indicam declarações públicas.
“As pautas que nos elegeram, o presidente Bolsonaro e eu, são as mesmas, e sempre me mantive fiel a elas, pois são demandas da população brasileira”, disse a senadora em 2021, quando foi escolhida para a vice-liderança do governo Bolsonaro no Congresso, de acordo com o site Campo Grande News. “Jamais desviaria do meu compromisso com as pessoas que confiaram seus votos a mim”, acrescentou.
A inflexão começou durante a CPI da Pandemia, criada naquele mesmo ano. Soraya passou a se distanciar do ex-presidente, respondeu a críticas feitas por Bolsonaro à comissão e, em 2022, lançou candidatura própria à Presidência, afastando-se de pautas defendidas por seus eleitores em 2018. Em 2026, filiou-se ao PSB, legenda de esquerda. Já em abril de 2026, votou contra o relatório da CPI do Crime Organizado que solicitava o indiciamento de três ministros do STF.
Heitor Freire pediu na <a href=”https://rededaverdade.com.br/category/editorial/justica/”>justiça</a> extinção do PT e depois ganhou cargo no governo Lula
Outro caso de destaque é o de Heitor Freire (Podemos-CE), eleito deputado federal em 2018 no Ceará com o rótulo de “o federal de Jair Bolsonaro”, conforme o jornal “O Povo”. Ele se apresentava como “cristão, conservador, armamentista e bolsonariano”. Em 2019, chegou a protocolar pedido na Justiça Eleitoral para cassação do registro do PT, com base em dados da Operação Lava Jato.
A crise interna do PSL, ainda em 2019, alterou seu percurso. Freire foi citado em reportagens sob acusação de ter vazado um áudio envolvendo Bolsonaro sobre articulações para troca na liderança do governo na Câmara, o que ele negou. Em 2020, prestou depoimento no inquérito das Fake News relatando a existência do chamado “gabinete do ódio”. Em 2023, já no início do governo Lula, foi nomeado para uma diretoria da Sudene, como parte de um acordo político com seu então partido, o União.
Joice Hasselman virou líder do PSL na Câmara e, após briga interna, denunciou o chamado “gabinete do ódio”
Joice Hasselmann figurou entre os maiores fenômenos eleitorais de 2018. Eleita deputada federal por São Paulo pelo PSL com mais de 1 milhão de votos — recorde histórico para uma mulher no cargo —, iniciou o governo Bolsonaro em posição de destaque, sendo escolhida pelo presidente como líder do PSL na Câmara em 2019.
Ainda naquele ano, foi destituída da função em meio a disputas internas no partido. Meses depois, participou da CPMI das Fake News, passando a denunciar o chamado “gabinete do ódio”. “São quase 2 milhões de robôs em apenas duas contas de Twitter. Eu quero crer que o presidente não sabe disso. Mas, pelo que se vê nas conversas do grupo do ‘Gabinete do Ódio’, o deputado Eduardo Bolsonaro está amplamente envolvido e é um dos líderes desse grupo que nós chamamos de milícia digital”, afirmou ela à CPMI.
Em 2021, buscou desfiliação do PSL na Justiça Eleitoral e ingressou no PSDB, partido pelo qual tentou a reeleição sem sucesso, obtendo pouco mais de 13 mil votos. Posteriormente, migrou para o Podemos e, em 2024, disputou uma vaga como vereadora em São Paulo, novamente sem êxito, com menos de dois mil votos.
Alexandre Frota “fez o L” em 2022
Alexandre Frota também foi eleito deputado federal em 2018 pelo PSL. No início de seu mandato, estava alinhado ao grupo antipetista e integrava o conjunto de parlamentares que ganharam projeção com Bolsonaro.
A ruptura ocorreu rapidamente. Em agosto de 2019, foi expulso do PSL após manter críticas ao ex-presidente. Posteriormente, filiou-se ao PSDB, prestou depoimento em investigações sobre supostas milícias digitais e rompeu com o partido quando este se aproximou de Bolsonaro nas eleições de 2022. No segundo turno daquele ano, declarou apoio a Lula, inclusive registrando imagem “fazendo o L”. Em 2024, foi eleito vereador em Cotia (SP) pelo PDT, legenda de esquerda.
Eleito com apoio de caminhoneiros, Nereu Crispim foi ao STF para barrar CPI do Abuso de Autoridade
Nereu Crispim foi eleito deputado federal em 2018 pelo PSL do Rio Grande do Sul, durante o crescimento da sigla impulsionado por Bolsonaro. Com forte ligação com caminhoneiros, votou alinhado ao governo em pautas como a reforma da Previdência e o pacote anticrime de Sergio Moro até abril de 2021.
A mudança teve início em 2021, quando passou a criticar Bolsonaro, acusando-o de frustrar a categoria e de atuar “para banqueiro e investidor”. Em 2022, durante bloqueios nas estradas após as eleições, declarou que os caminhoneiros estavam sendo utilizados como “bucha de canhão de golpistas”. No mesmo ano, já filiado ao PSD, ingressou no STF para tentar impedir a CPI do Abuso de Autoridade, proposta pelo deputado Marcel van Hattem (NOVO-RS), e solicitou o envio do caso ao inquérito das milícias digitais. Também não conseguiu se reeleger.
Pacheco e Alcolumbre, eleitos com apoio de Bolsonaro à Presidência do Senado, arquivaram pedidos de impeachment de ministros do STF
Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP) não tiveram origem política diretamente ligada a Bolsonaro, mas alcançaram a presidência do Senado por meio de articulações que envolveram apoio da direita.
Em fevereiro de 2021, Pacheco foi eleito presidente do Senado com apoio do governo Bolsonaro. Em agosto do mesmo ano, rejeitou e arquivou o pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes apresentado por Bolsonaro. Em 2023, com apoio de Lula e de setores do Centrão, foi reconduzido ao cargo ao derrotar o senador Rogério Marinho (PL-RN).
Alcolumbre seguiu trajetória semelhante. Presidiu o Senado no início do governo Bolsonaro, em 2019, e, em 2021, articulou a eleição de Pacheco. Em fevereiro de 2025, já durante o governo Lula, retornou ao comando da Casa com 73 votos. Desde então, manteve paralisadas pautas da direita relacionadas a questionamentos ao STF.

Com informações de Gazeta do Povo.

