Foto: Reprodução/Polícia Civil
Investigações revelam que adolescentes promovem transmissões ao vivo com crueldade contra pets, transformando violência em entretenimento e fonte de renda dentro de comunidades fechadas.
Grupos compostos, em sua maioria, por adolescentes passaram a utilizar servidores do Discord para transformar a tortura de animais — especialmente filhotes — em prática criminosa e mecanismo de obtenção de lucro. Nessas comunidades, os próprios integrantes realizam atos de crueldade contra cães e gatos durante transmissões ao vivo, buscando reconhecimento entre os pares e, conforme apuração da Polícia Civil de São Paulo, monetizando esse material para sustentar o ciclo de violência.
Classificado por investigadores como um ambiente “extremamente cruel”, o cenário expõe uma estrutura digital onde o sofrimento animal é convertido em espetáculo e mercadoria. Os atos criminosos são registrados, convertidos em dados e posteriormente comercializados dentro dessas redes.
O avanço das investigações financeiras ainda depende de diligências em curso, mas já está consolidado, segundo a delegada Lisandréa Salvariego, o funcionamento de um sistema de recompensas que mantém ativas as chamadas “panelas” — grupos restritos onde a violência é promovida e exibida em tempo real. A delegada lidera o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), vinculado à Secretaria da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.
Crimes ao vivo e audiência cúmplice
As transmissões desses crimes são previamente programadas e só adquirem valor dentro do grupo quando realizadas ao vivo, condição que comprova autenticidade e eleva o status de quem executa o ato.
“Só tem valor se for ao vivo”, explica a delegada. “Porque ao vivo ele consegue demonstrar que é ele mesmo que está fazendo.”
Do outro lado da tela, os espectadores não se limitam a assistir: participam ativamente, incentivando e sugerindo novas formas de violência. Em materiais analisados pela polícia, há registros de pedidos para mutilações enquanto os animais ainda estão vivos, incluindo ações como perfurar olhos.
A investigação também reuniu provas em que usuários incentivam diretamente os agressores durante as transmissões, com frases como “pisa na cabeça dele”.
A prática ocorre de forma recorrente. De acordo com a coordenação do Noad, há uma média de “10 a 15 animais por noite” submetidos a esse tipo de violência dentro dessas salas virtuais.
Jovens, hierarquia e busca por notoriedade
Os responsáveis por produzir e consumir esse conteúdo são, em sua maioria, adolescentes e jovens adultos de até 20 anos. Dentro das “panelas”, existe uma estrutura hierárquica clara, onde quanto mais extremo o conteúdo apresentado, maior o reconhecimento alcançado, explicou Lisandréa Salvariego.
“A principal motivação desses grupos não é o anonimato, mas a busca por reconhecimento”, disse, acrescentando que apelidos são consolidados a partir de atos de violência e exploração.
A progressão dentro desses grupos está diretamente ligada à brutalidade. A tortura de animais atua como uma espécie de ritual de validação e, simultaneamente, como forma de entretenimento para os demais participantes.
Sextorsão e coação: vítimas forçadas a matar
Nem todas as transmissões são realizadas por agressores voluntários. Parte dos envolvidos atua sob coação.
Segundo a delegada, adolescentes são atraídos por meio de interações virtuais e acabam vítimas de “sextorsão”. Após compartilharem imagens íntimas, passam a ser ameaçados e obrigados a cumprir ordens, incluindo a execução de animais da própria família em transmissões ao vivo. “Nessas condições, a gente já salvou mais de mil animais”, ressaltou Salvariego.
Quando essas vítimas são identificadas, a atuação policial ocorre de forma imediata. As medidas incluem a derrubada de servidores durante as transmissões e o contato direto com familiares por telefone, com o objetivo de impedir que os atos sejam consumados.

Com informações de Metrópoles

