Foto: Christian Solidarity International
A libertação de 31 fiéis sequestrados durante a Páscoa reacende o alerta sobre a crescente violência contra cristãos na Nigéria, considerada um dos lugares mais perigosos do mundo para a prática da fé cristã.
No domingo, 5 de abril, o exército nigeriano resgatou 31 cristãos que haviam sido sequestrados durante celebrações pascais no estado de Kaduna, região noroeste do país. O ataque deixou cinco mortos e evidencia, mais uma vez, o cenário crítico enfrentado pela comunidade cristã local.
O episódio ocorre enquanto cristãos na Nigéria ainda lamentam as vítimas de um ataque ocorrido no Domingo de Ramos, em 29 de março de 2026, que resultou na morte de 11 pessoas. Diante desses acontecimentos, cresce a atenção internacional sobre a realidade do Cristianismo no país. Nos últimos anos, os níveis de violência aumentaram significativamente, levando à classificação da Nigéria, em 2025, como o local mais perigoso do mundo para cristãos.
Buscando aprofundar a compreensão desse contexto, a Aleteia entrevistou o Dr. John Eibner, ativista de direitos humanos e presidente da Christian Solidarity International, que há décadas documenta casos de perseguição religiosa no continente africano. Segundo ele, muitas das interpretações predominantes sobre a violência no país não refletem fielmente os acontecimentos em campo.
Compreendendo a divisão Norte-Sul
As divisões internas da Nigéria remontam ao período do domínio colonial britânico. Após a derrota do Califado de Sokoto em 1903, os britânicos optaram por governar por meio das lideranças locais já existentes, adotando o sistema de domínio indireto, em vez de uma administração direta.
“Essa abordagem criou, inadvertidamente, uma estrutura política que favoreceu o norte islâmico, muitas vezes em detrimento dos diversos grupos étnicos e tribais no Middle Belt”, explicou Eibner. Enquanto os sultanatos do norte se adaptaram facilmente ao modelo, regiões do Middle Belt e do sul, mais fragmentadas, não possuíam estruturas equivalentes.
Com a independência em 1960, essas desigualdades estruturais permaneceram, garantindo ao norte vantagens políticas e eleitorais. O Middle Belt, historicamente resistente às jihad do século XIX, foi integrado a um sistema regional percebido como favorável ao norte. Segundo Eibner, estados como Benue e Plateau “têm consistentemente exigido maior autonomia regional por décadas”, resistindo à classificação como “Nigéria Centro-Norte”, frequentemente vista como “uma ferramenta política usada pelo establishment do norte para consolidar a força eleitoral”.
Eibner também destacou que a ordem política pós-independência entrou em colapso em apenas três anos, culminando na guerra civil de 1967, que resultou em quase um milhão de mortes, muitas delas de cristãos do sul. “A guerra é frequentemente descrita como um reflexo de uma divisão mais ampla entre o norte muçulmano e o sul cristão”, acrescentou.
Uma linha de fratura histórica
O Middle Belt ocupa uma posição singular na Nigéria, não sendo completamente associado ao norte nem ao sul, e tampouco sendo homogêneo em termos religiosos. Trata-se de uma região marcada por grande diversidade cultural e religiosa, que historicamente resistiu à expansão islâmica.
Atualmente, essa área tornou-se o principal foco da violência contra cristãos. De acordo com Eibner, esse fenômeno não é recente. Ele menciona relatos históricos de ataques semelhantes no século XIX, envolvendo invasões de aldeias, deslocamentos forçados e escravidão. “Para as comunidades que resistiram ao Islã e mais tarde adotaram o Cristianismo, a violência atual é frequentemente interpretada como uma continuação desses conflitos anteriores”.
Nesse cenário, conteúdos compartilhados nas redes sociais, como vídeos de sequestros e ameaças, são interpretados por moradores locais como uma repetição de padrões históricos de agressão.
Quem está por trás da violência?
No debate internacional, os conflitos na Nigéria são frequentemente classificados como disputas étnicas, concorrência por recursos ou confrontos entre pastores e agricultores. Muitos atribuem os episódios à tensão entre pastores Fulani nômades e agricultores sedentários.
Entretanto, Eibner afirma que essas interpretações não captam a realidade dos ataques. “Os perpetradores desses ataques têm sido consistentemente identificados pelo governo nigeriano, clérigos islâmicos e vítimas em todas as aldeias afetadas como grupos de milícias islâmicas Fulani”. Segundo ele, não se trata de conflitos tradicionais por pastagem.
“Eles entram nas aldeias em grande número, em motocicletas, fortemente armados e organizados, assemelhando-se a incursões militares coordenadas”, observou. Esses grupos são descritos como milícias estruturadas, com acesso a armamentos avançados, incluindo drones, equipamentos de visão noturna, rifles pesados e granadas propelidas por foguetes, capazes de realizar ataques simultâneos, frequentemente à noite, com pouca reação das forças de segurança.
Ele também destacou um padrão recorrente: “Em vários casos, no estado de Plateau, os ataques se concentraram em cristãos, enquanto muçulmanos nas mesmas comunidades foram deixados ilesos”. Eibner mencionou ainda episódios em que vizinhos muçulmanos protegeram cristãos durante ataques, indicando que “tomados em conjunto, esses padrões sugerem uma campanha deliberada e direcionada contra populações cristãs.”
O governo nigeriano reconhece a atuação de grupos terroristas como Ansaru, Lakurawa e organizações ligadas à Al Qaeda na região do Sahel, evidenciando um nível de organização superior ao de conflitos locais.
Crenças e política
A vulnerabilidade dos cristãos na Nigéria também está relacionada à forma como a fé influencia a atuação política. Conforme Eibner explica, “os cristãos geralmente aderiram aos ensinamentos bíblicos que enfatizam o respeito às autoridades governamentais… [e] mantêm uma distinção entre igreja e estado, ao contrário do Islã, que pode integrar autoridade religiosa e política”.
Essa postura teológica moldou a participação política das igrejas, que por décadas permaneceram majoritariamente afastadas da atuação política direta, refletindo uma visão sobre os limites entre religião e poder.
Por outro lado, essa posição também traz consequências práticas, podendo colocar comunidades cristãs em desvantagem em contextos de conflito, especialmente quando os adversários não seguem os mesmos princípios.
No norte do país, segundo Eibner, grupos jihadistas frequentemente não distinguem entre religião e governança. “As instituições cristãs são vistas como promotoras de ideias como liberdade individual, independência e direitos humanos”, afirmou. Esses valores são considerados incompatíveis por alguns defensores da aplicação da Sharia, o que reforça que “a motivação ideológica para impor a governança islâmica… torna-se uma obrigação religiosa para muitos”.
O que o futuro exige
De acordo com Eibner, o futuro dos cristãos na Nigéria depende não apenas do registro da violência, mas de ações concretas para apoiar essas comunidades. Nos últimos anos, a assistência tem sido fornecida por igrejas e organizações internacionais, por meio de ajuda emergencial, atendimento médico, iniciativas educacionais, apoio econômico e assistência psicossocial.
Uma solução duradoura, segundo ele, exigiria que o governo destinasse recursos federais para reconstrução e reabilitação, com execução e fiscalização conduzidas por comunidades locais, garantindo transparência. A criação de um tribunal especial para julgar casos de terrorismo também poderia fortalecer a aplicação da justiça e prevenir novos ataques.
Sem essas medidas, a tendência é de continuidade do ciclo de violência. No entanto, com esforços coordenados em nível nacional e internacional, ainda existe a possibilidade de reconstrução, promoção da justiça e proteção das comunidades religiosas na Nigéria.

Com informações de Aleteia

