Foto: Fotomontagem / Hora Brasília
A tensão entre Estados Unidos e Brasil ganhou novos contornos após bastidores revelarem o descontentamento do governo Trump com a forma como o governo Lula divulgou a prisão de Alexandre Ramagem, tratada como resultado de cooperação internacional — versão que não foi reconhecida por Washington.
O governo de Donald Trump demonstrou insatisfação com o Brasil. A irritação não teve origem na crise diplomática em si, mas na sua motivação. De acordo com informações do Metrópoles, integrantes da administração americana consideraram que houve “exagero” por parte de Brasília ao anunciar a detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem, ocorrida na Flórida, como fruto de uma “cooperação internacional” entre a Polícia Federal e o ICE. As autoridades americanas não reconheceram a ação como resultado de qualquer operação conjunta. Após analisarem o caso, concluíram que a detenção ocorreu devido a um visto vencido — e não por articulação coordenada com o Brasil.
Mesmo sem aguardar a versão oficial dos Estados Unidos, o governo Lula divulgou a prisão nas redes sociais como uma vitória no combate ao crime organizado, vinculando o episódio ao ICE e construindo uma narrativa de colaboração internacional que Washington não validou. Sete dias depois, veio a resposta: o Departamento de Estado determinou a expulsão do delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação junto ao ICE em Miami, acusando-o de tentar “manipular o sistema de imigração americano para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”.
O anúncio que ninguém em Washington autorizou
Quando Ramagem foi detido em Orlando, no dia 13 de abril, o governo brasileiro apresentou o episódio como uma operação policial internacional. A Polícia Federal e membros do Palácio do Planalto divulgaram o caso destacando uma suposta cooperação com o ICE. O presidente Lula, que se encontrava em viagem à Europa para encontros com líderes de esquerda contrários a Trump, passou a contar com uma narrativa interna conveniente: a de que seu governo havia localizado e capturado, em solo americano, um foragido condenado a 16 anos de prisão pelo STF.
Entretanto, essa versão não correspondia à interpretação de Washington. Integrantes do governo Trump iniciaram imediatamente a apuração dos fatos após o anúncio brasileiro. A conclusão foi idêntica à defendida desde o início por advogados e aliados de Ramagem: ele foi abordado por autoridades locais devido a uma infração de trânsito leve, encaminhado ao ICE por questões migratórias relacionadas ao vencimento do visto e liberado dois dias depois. Não houve cooperação internacional, operação conjunta ou acordo entre PF e ICE para localizá-lo.
Ramagem deixou a custódia no dia 15 de abril. Seu aliado, Paulo Figueiredo, agradeceu publicamente a Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio pela libertação — episódio que gerou constrangimento diplomático ao governo Lula, ao evidenciar que os americanos libertaram, e não prenderam, o indivíduo que o Brasil pretendia extraditar.
O segundo anúncio falso que antecedeu a crise
O caso Ramagem não foi o único fator de irritação para Washington. Dias antes, em 10 de abril, representantes dos Estados Unidos participaram de reunião com o ministro da Fazenda Dario Durigan, o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues e o secretário da Receita Federal Robinson Barreirinhas, com o objetivo de discutir a ampliação da fiscalização remota no Porto de Santos. Durante o encontro, foi debatida uma carta de intenções que não chegou a ser assinada. Ainda assim, ao término da reunião, os representantes brasileiros convocaram uma coletiva e anunciaram a “formalização de uma cooperação com os EUA para o combate de armas e drogas”. Lula também divulgou essa informação nas redes sociais. As autoridades americanas, porém, não reconheceram que qualquer novo acordo tenha sido celebrado.
Dois episódios em um intervalo de dez dias consolidaram um padrão considerado suficiente para provocar uma reação de Washington.
A expulsão como recado político
O comunicado emitido pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado foi redigido de forma a extrapolar o caso específico. “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”, afirma a nota oficial. A linguagem adotada vai além do campo técnico e assume caráter político, indicando publicamente que o governo brasileiro teria tentado utilizar o sistema migratório americano como instrumento de perseguição a um adversário político.
O delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava em Miami há mais de dois anos com base em um memorando de entendimento entre a PF e o ICE, foi expulso sem aviso prévio formal ao governo brasileiro. Tanto a Polícia Federal quanto o Palácio do Planalto foram surpreendidos — o mesmo governo que havia anunciado uma cooperação inexistente tomou conhecimento, sem aviso, de que o único agente responsável por essa interlocução havia sido retirado do país.
Lula reagiu a partir de Hannover, ameaçando expulsar agentes americanos do Brasil. Já em Brasília, Alckmin adotou um tom mais cauteloso. O chanceler Mauro Vieira declarou que a medida “não tem fundamento”. Nenhuma das autoridades esclareceu por que o governo anunciou uma cooperação não reconhecida por Washington, nem por que a detenção de Ramagem foi utilizada como vitrine eleitoral antes da verificação dos fatos.
A visita à Casa Branca, inicialmente prevista para março e posteriormente adiada sem nova data definida, tornou-se agora um objetivo indefinido. O governo que buscava aproximação com Trump enquanto se reunia com seus opositores na Europa utilizou o nome dos Estados Unidos para construir uma narrativa política — e recebeu como resposta uma expulsão acompanhada de um comunicado de repercussão global.

Com informações de Hora Brasília

