Foto: Antoine Mekary | ALETEIA
Em meio a um cenário internacional marcado por tensões e conflitos, o Papa Leão XIV elevou um forte apelo pela paz, pedindo o fim imediato da guerra e convocando líderes e povos ao diálogo.
No contexto das delicadas negociações entre os Estados Unidos e o Irã, após mais de 40 dias de guerra que provocaram instabilidade no Oriente Médio, o Papa Leão XIV pediu o abandono de qualquer pretensão de poder absoluto e reforçou a necessidade de diálogo como caminho para a paz.
“Chega de idolatria do eu e do dinheiro! Chega de demonstrações de força! Chega de guerra!”, exortou o Papa Leão XIV durante sua meditação no Rosário pela Paz. Diante do cenário de tensão internacional, o pontífice apelou à abertura ao diálogo e à rejeição de qualquer ilusão de onipotência.
“Queremos dizer ao mundo que é possível construir a paz, uma nova paz; que é possível viver juntos, com todos os povos, de todas as religiões, de todas as raças; e que queremos ser discípulos de Jesus Cristo, unidos como irmãos em um mundo de paz”, declarou o Papa poucos minutos antes do início da liturgia. Ele fez um breve pronunciamento improvisado nas escadarias da basílica, diante dos fiéis reunidos na Praça de São Pedro.
A celebração foi marcada pela meditação dos mistérios gloriosos do Rosário, acompanhada por leituras bíblicas e textos dos Padres da Igreja: São Cipriano de Cartago, São César de Arles, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio de Milão e Santo Agostinho de Hipona. Durante o momento de oração, fiéis vindos dos cinco continentes se revezaram para acender uma lâmpada colocada aos pés da imagem de Maria Regina Pacis (Mãe da Paz), utilizando a lâmpada da paz trazida de Assis.
“A guerra divide, a esperança une. A tirania pisa, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina”, destacou o Papa em sua reflexão inspirada no tempo pascal. “Somos um povo que já se levanta de novo!”, afirmou o Bispo de Roma.
Ele ressaltou que a oração “não é um refúgio para fugir de nossas responsabilidades” nem “um anestésico para evitar a dor que tanta injustiça desencadeia”, mas sim “a resposta mais livre, universal e profundamente comovente à morte”.
“Nada pode nos aprisionar em um destino já escrito, nem mesmo neste mundo onde os túmulos parecem não ser suficientes, porque continuamos crucificando, aniquilando a vida, sem direito e sem piedade”, afirmou o Papa ao final desta semana da Oitava de Páscoa.
No Reino de Deus, “não há espada nem drone”
Inspirando-se no histórico apelo de Paulo VI — “Nunca mais a guerra!” — proclamado nas Nações Unidas em 1965, e também na postura de João Paulo II diante das guerras do Iraque, em 1991 e 2003, Leão XIV conclamou a romper “a cadeia demoníaca do mal”. Ele convidou todos a se colocarem “a serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espada, nem zumbido, nem vingança, nem trivialização do mal, nem benefício injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão”.
O líder da Igreja Católica posicionou-se “contra essa ilusão de onipotência que, ao nosso redor, se torna cada vez mais imprevisível e agressiva”. Ele alertou que “o equilíbrio dentro da família humana está seriamente desestabilizado” e lamentou que “mesmo o santo Nome de Deus, o Deus da vida, está sendo arrastado para discursos de morte”, em um cenário onde, “como em um pesadelo, a realidade está povoada de inimigos”.
Sem citar diretamente nações, mas em possível referência a discursos de líderes internacionais, o Papa afirmou que “a verdadeira força se manifesta a serviço da vida”. Em sintonia com João XXIII, retomou as palavras de Pio XII no início da Segunda Guerra Mundial: “Com a paz, nada se perde; mas com a guerra, tudo pode ser perdido”.
“Unimos, portanto, as energias morais e espirituais de milhões, inclusive bilhões de homens e mulheres, de idosos e jovens, que hoje acreditam na paz, que escolhem a paz, que curam as feridas e reparam os danos causados pela loucura da guerra”, declarou o Papa, convidando especialmente a escutar “a voz das crianças”.
A urgência do diálogo
“Pare! É tempo de paz! Sentem-se à mesa do diálogo e da mediação, não à mesa onde se planeja o rearmamento e se deliberam atos de morte!”, exortou o Papa, enquanto se intensificam movimentações diplomáticas. Negociações inéditas tiveram início no Paquistão entre o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e autoridades iranianas, após semanas de conflito no Oriente Médio. Além disso, tratativas diretas entre Israel e Líbano estão previstas para ocorrer em Washington na semana seguinte, após bombardeios que deixaram mais de 300 mortos em Beirute no dia 8 de abril.
“A oração nos compromete a transformar o que resta de violência em nossos corações e mentes”, afirmou o Papa, dirigindo-se à população global e incentivando atitudes concretas de paz no cotidiano, bem como o retorno à confiança no amor, na moderação e na boa política.
“Nunca mais a guerra, uma aventura sem volta; nunca mais a guerra, uma espiral de luto e violência”, reiterou, ecoando novamente palavras de João Paulo II durante a Guerra do Golfo em 1991. “Irmãos e irmãs de todas as línguas, de todos os povos e de todas as nações: formamos uma única família que chora, que espera e que se levanta novamente”, afirmou Leão XIV.
A oração recitada pelo Papa
Aqui está o texto completo da oração recitada pelo Papa no final de seu discurso:
“Senhor Jesus, você venceu a morte sem armas nem violência: você aniquilou seu poder com o poder da paz.
Dê-nos a sua paz, como você deu às mulheres indecisas na manhã de Páscoa, como você a deu aos discípulos escondidos e assustados.
Envie seu Espírito, o sopro que dá vida, que reconcilia, que transforma adversários e inimigos em irmãos e irmãs.
Inspire-nos a confiança de Maria, sua mãe, que, com o coração partido, estava ao pé de sua cruz, firme na fé de que você ressuscitaria.
Que a loucura da guerra acabe e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda sabem como criar, como preservar, como amar a vida.
Ouça-nos, Senhor da vida!

Com informações de Aleteia

