Foto: Arquidiocese de Bamenda
Líderes separatistas nas regiões anglófonas dos Camarões anunciaram uma interrupção temporária dos confrontos armados para assegurar a circulação durante a visita do papa Leão XIV, considerada por eles um evento de grande relevância espiritual para a população local.
Representantes separatistas das áreas de língua inglesa dos Camarões informaram a concessão de um salvo-conduto de três dias para permitir a visita do papa Leão XIV, reconhecendo o caráter religioso e a importância do momento para os fiéis da região.
O porta-voz do Conselho Governante da Ambazônia, Lucas Asu, declarou à imprensa na última segunda-feira (13) que os grupos separatistas vinculados à Aliança da Unidade concordaram em adotar uma “passagem segura” de três dias nas regiões anglófonas, válida de hoje (15) até sexta-feira (17).
“A Aliança da Unidade… em estreita consulta com os comandantes de libertação da Ambazônia em todo o território, deseja dirigir-se ao nosso povo e à comunidade internacional por ocasião da visita iminente do Santo Padre”, disse Asu.
“Em reconhecimento à profunda importância espiritual dessa visita e no interesse de salvaguardar a vida civil e facilitar a participação digna, foi tomada uma decisão coordenada para implementar um acordo humanitário e de segurança temporário”, disse o porta-voz.
De acordo com o comunicado, os combatentes separatistas que atuam na área que denominam Ambazônia receberam orientações para garantir a proteção durante o período, possibilitando a circulação livre de civis, peregrinos e autoridades religiosas.
“Assim, será observada um salvo conduto de três dias, de 15 a 17 de abril, em todo o território da Ambazônia”, disse Asu. “Nesse período, as forças da Ambazônia foram instruídas a tomar todas as medidas necessárias para garantir um ambiente seguro que permita a livre circulação, segura e digna de civis, peregrinos, dignitários visitantes e do Santo Padre e sua comitiva”.
Camarões representa a segunda etapa da viagem de Leão XIV ao continente africano, realizada entre os dias 13 e 23 de abril, iniciada na Argélia.
A jornada apostólica de 11 dias constitui a primeira visita do papa Leão XIV à África desde sua eleição ao pontificado, ocorrida em maio do ano passado. Após iniciar sua missão pastoral na Argélia, localizada no Magreb, no norte do continente africano, o pontífice seguirá para Camarões antes de continuar o itinerário rumo a Angola e encerrar a viagem na Guiné Equatorial.
A passagem por território camaronês é considerada especialmente sensível devido ao conflito em andamento nas regiões anglófonas do noroeste e sudoeste, onde grupos separatistas armados enfrentam forças governamentais desde 2017, episódio amplamente conhecido como Crise Anglófona nos Camarões.
Bamenda, capital da região noroeste e um dos principais focos do conflito, abriga significativa população católica e sofreu fortemente com anos de violência, deslocamentos populacionais e impactos econômicos decorrentes da crise.
Antes da chegada do pontífice, autoridades eclesiásticas da província de Bamenda intensificaram os apelos por ampla participação dos fiéis durante a visita programada para amanhã (16).
“Essa visita não é como qualquer outra visita apostólica que os vigários de Cristo fizeram ao nosso país no passado, mas tem implicações significativas, especialmente para nós nesta província, quando olhamos para o que passamos nos últimos nove anos e ainda estamos passando hoje”, disse o coordenador-geral da visita de Leão XIV na província, O bispo William Neba.
O líder da Igreja fez um apelo: “Exortamos a todos a sair e rezar com o vigário do Príncipe da Paz… para que a Paz e a Justiça que nossa Província tanto almeja… se tornem realidade, para que todas as atividades em todos os setores de nossa vida possam voltar à normalidade”.
Em comunicado oficial, líderes separatistas destacaram a relevância da visita papal para os habitantes das áreas atingidas pelo conflito.
A decisão de instituir a suspensão temporária das hostilidades “mostra um compromisso deliberado com a responsabilidade, a moderação e o respeito pela dignidade humana, mesmo no contexto do conflito em curso”, disse o porta-voz do Conselho Governante da Ambazônia.
Asu afirmou, em declaração divulgada no último domingo (12), que a medida “visa permitir que nosso povo – que sofreu grandes dificuldades – participe desse momento histórico e espiritual sem medo”.
Os grupos separatistas também ressaltaram que a viagem apostólica do papa Leão XIV não deve ser interpretada como apoio político ao governo dos Camarões.
“A visita do Santo Padre é de natureza pastoral e espiritual”, disse Asu. “Não deve ser interpretada, exemplificada ou apresentada como um apoio a qualquer autoridade, política ou processo político”.
“Portanto, instamos às autoridades em Yaoundé e a todos os atores externos para que ajam com a devida responsabilidade e se abstenham de qualquer tentativa de instrumentalizar essa visita como prova de uma volta à normalidade ou como validação de qualquer narrativa política”, disse ele.
Mesmo com o acordo humanitário temporário, os separatistas afirmam que a disputa política mais ampla envolvendo o futuro das regiões anglófonas segue sem solução.
Os bispos do país têm atuado de forma constante no debate público sobre governança, eleições, corrupção e unidade nacional. As cartas pastorais divulgadas em períodos eleitorais frequentemente abordam temas como transparência, responsabilidade e participação pacífica.
Esse posicionamento coloca a Igreja em uma situação delicada. Ainda que não atue como agente político, exerce influência moral, o que pode gerar tanto apoio popular quanto atenção por parte das autoridades governamentais.
A crise anglófona nas regiões noroeste e sudoeste — marcada pelo confronto entre separatistas e forças estatais — ampliou o papel da Igreja como mediadora. Bispos locais, especialmente em Bamenda, têm insistido na necessidade de diálogo e na proteção da população civil.
A visita do papa Leão XIV a Bamenda vai além de um ato simbólico. Ela ocorre em um cenário de fragilidade social e complexidade política, onde cada declaração pública pode ser analisada com atenção em busca de significados diplomáticos.

Com informações de ACI Digital

