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Em carta recente, o Papa Leão XIV adverte sobre dois riscos centrais do uso de chatbots por crianças: a dependência intelectual e o enfraquecimento das relações humanas.
O Papa Leão XIV voltou a manifestar preocupação com os impactos da inteligência artificial, ao divulgar em 22 de março de 2026 uma carta dirigida ao jornal infantil católico Popotus, na qual alerta para os perigos do uso indiscriminado de chatbots por crianças, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento intelectual e à capacidade de relacionamento.
Leão XIV já havia tratado do tema anteriormente, mas desta vez enfatiza, na carta publicada em 22 de março, o risco de que crianças passem a enxergar os chatbots como “o oráculo do conhecimento universal” e também como “seus melhores amigos”, o que pode comprometer tanto sua inteligência quanto suas relações interpessoais.
A mensagem do pontífice foi divulgada por ocasião do aniversário do Popotus, semanário católico italiano voltado ao público infantil. No texto, dirigido a Marco Girardo, diretor do Avvenire — jornal oficial da Conferência Episcopal Italiana responsável pela publicação desde 1996 —, o Papa faz um apelo para que se preserve a infância de influências que promovam “uma concepção desumana de informação e educação”.
Diante do avanço da tecnologia digital e da inteligência artificial, ele destaca a necessidade de “proteger sua infância e acompanhar seu crescimento”, dirigindo-se diretamente a pais e educadores como responsáveis por essa missão.
“Não devemos deixar que as crianças acabem acreditando que podem encontrar nos chatbots de inteligência artificial seus melhores amigos ou o oráculo do conhecimento universal”, adverte Leão XIV. O líder da Igreja Católica, que tem abordado o tema com frequência desde sua eleição, também alerta que os algoritmos podem “[enfraquecem] sua inteligência e capacidade de relacionamento e [entorpecem] sua criatividade e pensamentos”.
O risco de enfraquecer sua inteligência
“O uso sistemático do ChatGPT pode afetar as habilidades cognitivas de um aluno. Se uma criança adquirir o hábito de perguntar tudo à IA em vez de pensar por si mesma, o risco é que seu cérebro se atrofia”, afirmou Jean Pouly, consultor de mediação digital, em declaração recente à Aleteia.
Ele também propõe uma analogia entre o uso positivo e negativo da inteligência artificial, comparando-a a uma órtese e a uma prótese. “A inteligência artificial só produz seu verdadeiro valor se se conectar bem à inteligência humana. Nesse caso, ocorre uma espécie de aumento da inteligência, uma espécie de “órtese digital”. Caso contrário, corremos o risco do fenômeno da “prótese digital”, onde a IA substitui totalmente o pensamento humano.”
Em sua obra La vie machinale (DDB), Gaultier Bès, professor de letras e integrante da ecoaldeia de La Bénisson-Dieu, na região do Loire, analisa o ciclo prejudicial da inteligência artificial generativa: “Que um algoritmo termine suas frases e corrija seus erros, ou mesmo escreva diretamente para você, é ainda mais atraente quanto o exercício se tornou mais trabalhoso. É um círculo vicioso: quanto mais a inteligência do Homo numericus patina, mais ele usa IAs; e quanto mais ele usa IAs, mais sua inteligência fica atolada”.
O risco de enfraquecer sua capacidade de relacionamento
Determinados aplicativos de inteligência artificial já permitem a criação de avatares personalizados que simulam amizades conforme os desejos do usuário. Um exemplo é o Character.AI, considerado o segundo aplicativo mais utilizado do gênero, atrás do ChatGPT. No início do ano, a startup americana Friend.com chegou a promover em Paris um colar com inteligência artificial capaz de ouvir e dialogar continuamente com seu usuário.
Contudo, apesar de sua sofisticação, essas tecnologias não suprem as necessidades humanas mais profundas. “Um ser humano precisa de laços revigorantes e estimulantes psicologicamente, ele precisa de empatia, um olhar calmante, tranquilizador, ele precisa ser acompanhado em profundidade, tanto em sua alegria quanto em sua angústia, e não apenas ouvir uma solução técnica e prática”, explica a psicóloga Rita de Roucy.
Nenhum aplicativo de IA pode realmente sentir empatia
“Nenhum aplicativo da IA pode realmente sentir empatia”, destaca o documento do Vaticano Antiqua et Nova, publicado em 28 de janeiro de 2025, que trata da relação entre inteligência artificial e inteligência humana. “A empatia requer a capacidade de ouvir, reconhecer a singularidade irredutível do outro, acolher sua alteridade e também entender o significado de seus silêncios. Ao contrário da esfera dos julgamentos analíticos, na qual a IA predomina, a verdadeira empatia existe na esfera relacional.”
O Papa se dirige diretamente às crianças
Inserindo sua mensagem em um cenário global preocupante — “nestes dias de grande preocupação com as guerras que ameaçam o futuro da humanidade” —, Leão XIV dirige palavras diretamente às crianças. “Devolver a beleza do mundo é possível, e você pode ajudar os adultos a vê-la”, afirma.
O Papa orienta que elas mantenham sempre “a confiança naqueles que [os] amam, a linguagem universal do amor, a força desarmante do sorriso, a coragem de pedir perdão, a beleza de fazer as pazes”.
Para ele, preservar a humanidade exige “manter um olhar infantil sobre a realidade”, ou seja, conservar “olhos puros” capazes de perceber a essência das coisas. E conclui: “Talvez só olhando para os olhos perdidos das crianças diante da barbárie da guerra possamos nos converter”.

Com informações de Aleteia

