Foto: AIGAV Pool.
Em visita apostólica à Argélia, o papa Leão XIV destacou o testemunho dos mártires cristãos como uma “semente viva” de fé, durante encontro com a comunidade local em Argel.
O primeiro dia da viagem internacional do papa Leão XIV ao continente africano foi concluído com um encontro com a comunidade argelina na basílica de Nossa Senhora da África, em Argel, onde o pontífice ressaltou o legado espiritual dos mártires e a importância da oração, caridade e unidade.
“É com grande alegria e carinho paternal que me encontro hoje convosco, que sois uma presença discreta e preciosa, enraizada nesta terra, marcada por uma história antiga e por luminosos testemunhos de fé”, afirmou o papa Leão XIV após escutar diversos testemunhos.
“A vossa comunidade tem raízes muito profundas”, declarou o pontífice. “Sois herdeiros de uma série de testemunhas que deram a vida, movidas pelo amor a Deus e ao próximo. Penso, em particular, nos dezenove religiosos e religiosas mártires da Argélia, que escolheram estar ao lado deste povo nas suas alegrias e nas suas dores. O sangue deles é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto”.
Após compromissos institucionais — iniciados com um encontro no fim da manhã com o presidente da República Argelina, autoridades e representantes diplomáticos — Leão XIV reuniu-se à tarde com a comunidade católica do país, que compareceu mesmo sob forte chuva.
No início da cerimônia, o papa ajoelhou-se em adoração diante do sacrário que continha a Eucaristia.
“Vós sois também herdeiros de uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros séculos do cristianismo”, disse ele em discurso pronunciado em francês. “Nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, santa Mônica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz”.
“A todos vós, caríssimos, e aos que, não podendo estar presentes, acompanham à distância esse encontro, expresso a minha gratidão pelo empenho diário com que tornais visível o rosto materno da Igreja”, afirmou Leão XIV.
Após agradecer ao arcebispo de Bangui, República Centro-Africana, cardeal Dieudonné Nzapalainga, além de uma religiosa, um estudante pentecostal, um guia da basílica e uma mulher muçulmana que também discursaram, o papa convidou os presentes a meditarem sobre três dimensões fundamentais da vida cristã.
“Em primeiro lugar, a oração”, disse ele. “Todos nós somos necessitados da oração. A oração une e humaniza, fortalece e purifica o coração, e a Igreja argelina, graças à oração, semeia humanidade, unidade, força e pureza à sua volta, alcançando lugares e contextos que só o Senhor conhece”.
Ao abordar a caridade, Leão XIV ressaltou que a misericórdia e o serviço vão além de uma ajuda prática, constituindo-se como espaços de graça e crescimento recíproco.
“Aliás, foi precisamente o amor pelos irmãos que animou o testemunho dos mártires que recordamos. Perante o ódio e a violência, permaneceram fiéis à caridade até ao sacrifício da vida, juntamente com tantos outros homens e mulheres, cristãos e muçulmanos. Fizeram-no sem pretensões e alarde, com a serenidade e firmeza de quem não presume nem se desespera, porque sabe em Quem depositou a sua confiança (cf. 2 Tm 1, 12)”.
Ao tratar da paz e da unidade, o pontífice afirmou que esses elementos constituem o eixo central de sua visita.
“Num mundo onde as divisões e as guerras semeiam dor e morte entre as nações, nas comunidades e até mesmo nas famílias, o vosso viver unidos e em paz é um grande sinal”, declarou. “Unidos, difundis a fraternidade, inspirando nos que vos rodeiam desejos e sentimentos de comunhão e reconciliação, com uma mensagem tanto mais forte e clara quanto testemunhada na simplicidade e na humildade”.
“Uma parte considerável do território deste país está ocupada pelo deserto, e no deserto não se sobrevive sozinho”, acrescentou. “ As adversidades da natureza relativizam qualquer presunção de autossuficiência e recordam a todos que precisamos uns dos outros e que precisamos de Deus. É o reconhecimento da fragilidade que abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz”.
Antes de chegar à basílica de Nossa Senhora da África, o papa Leão XIV visitou a Grande Mesquita de Argel e, anteriormente, passou pelo centro de hospitalidade e amizade das irmãs missionárias agostinianas em Bab El Oued.
No local, o pontífice prestou homenagem à memória de diversas religiosas da comunidade que foram assassinadas durante a guerra civil do país nos anos 1990. Após rezar com as freiras e ouvir a superiora, Leão XIV destacou as mártires como sinal vivo da espiritualidade agostiniana: testemunhar a fé até as últimas consequências.
“A sua presença aqui significa muito”, afirmou, recordando uma visita anterior e enfatizando o legado de santo Agostinho na região: promover o respeito pela dignidade humana e afirmar a possibilidade de convivência pacífica mesmo diante das diferenças.
Antes de encerrar, Leão XIV agradeceu às religiosas e as incentivou a perseverar, lembrando que a celebração dos 19 mártires da Argélia ocorre em 8 de maio — data que coincide com o dia de sua eleição ao pontificado.
O papa Leão XIV realizará amanhã (14) uma visita que descreveu como um retorno às próprias raízes, ao ir a Hipona, cidade onde santo Agostinho — fundador da ordem à qual pertence o pontífice — exerceu o episcopado entre os anos 396 e 430 d.C.

Com informações de ACI Digital

